VÍDEOS DO PCB

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A segunda morte de Osama bin Laden



Se hoje fosse 1º de Abril e não 2 de Maio, podíamos ignorar como uma brincadeira a manchete desta manhã de que Osama bin Laden foi morto num combate armado no Paquistão e rapidamente lançado ao mar. No actual estado de coisas, devemos considerar isto como prova adicional de que o governo estado-unidense tem uma fé ilimitada na credulidade dos americanos.

Pense nisso. Quais são as probabilidades de uma pessoa que alegadamente sofre dos rins e precisa de diálise, e que além disso é afligido por diabete e baixa tensão arterial, sobreviva em esconderijos na montanha durante uma década? Se bin Laden fosse capaz de adquirir o equipamento de diálise e os cuidados médicos que as suas condições requeriam, será que o despacho do equipamento de diálise não apontaria a sua localização? Por que foram precisos dez anos para encontrá-lo?

Considere também as afirmações, repetidas pelos media triunfalistas dos EUA a celebrarem a morte de bin Laden, que "bin Laden utilizou seus milhões para financiar campos terroristas no Sudão, nas Filipinas e no Afeganistão, enviando 'guerreiros sagrados' para fomentar a revolução e combater com forças fundamentalistas muçulmanas no Norte da África, Chechénia, Tajiquistão e Bósnia". Isso é um bocado de actividade para ser financiado por uns meros milhões (talvez os EUA devessem tê-los colocado na conta do Pentágono), mas a questão principal é: como é que bin Laden foi capaz de movimentar o seu dinheiro de um lado para o outro? Que sistema bancário o ajudou? O governo estado-unidense tem êxito em apresar os activos de povos de países inteiros, sendo a Líbia o mais recente. Por que não os de bin Laden? Estaria ele a carregar consigo US$100 milhões em moedas de ouro e a enviar emissários para distribuir os pagamentos das suas operações dispersas por lugares remotos?

A manchete desta manhã tem o odor de um evento encenado. O fedor emana dos noticiários triunfalistas carregados de exageros, dos celebrantes que ondeiam bandeiras e cantam "USA, USA". Poderia algo diferente estar em curso?

Não há dúvida de que o presidente Obama precisa desesperadamente de uma vitória. Ele cometeu o erro do idiota ou o recomeço da guerra no Afeganistão e agora, após uma década, os EUA enfrentam o impasse, se não a derrota. As guerras dos regimes Bush/Obama levaram os EUA à bancarrota, deixando no seu rastro enormes défices e um dólar em declínio. E o momento da re-eleição está a aproximar-se.

As várias mentiras e enganos, tais como "armas de destruição maciça", das últimas administrações têm consequências terríveis para os EUA e o mundo. Mas nem todos os enganos são o mesmo. Recordem, toda a razão para invadir o Afeganistão era em primeiro lugar para apanhar bin Laden. Agora que o presidente Obama declarou que bin Laden levou um tiro na cabeça, dado pelas forças especiais dos EUA a operarem num país independente e que estas o lançaram ao mar, não há razão para continuar a guerra.

Talvez o declínio precipitado do US dólar nos mercados de câmbio estrangeiros tenha forçado algumas reduções reais no orçamento, as quais só podem vir da travagem de guerra ilimitadas. Até o declínio do dólar ter atingido o ponto de ruptura, Osama bin Laden, o qual muitos peritos acreditam ter sido morto há anos, era um bicho-papão útil para alimentar os lucros do complexo militar e de segurança dos EUA.

Paul Craig Roberts
Postado originalmente em http:/resistir.info em 02/Maio/2011

ELEIÇÕES CUBANAS TÊM PARTICIPAÇÃO DE OPOSITORES

Oposição faz campanha livremente, mas a mídia dominante ignora as eleições municipais cubanas, que acabam de ser realizadas. Ao lado da participação exercida diretamente pela população, elas são parte da atual democracia cubana. O povo cubano está satisfeito? O tema da participação popular e da eficácia do sistema de representação tem sido discutido nas assembleias populares. Muitos dizem que o parlamento é eleitoralmente democrático, mas os deputados têm pouca autonomia para decidir. O artigo é de Hideyo Saito.

Ocupada em denunciar a suposta ditadura existente em Cuba, quase toda a mídia dominante brasileira ignorou as eleições municipais cubanas, que acabam de ser realizadas, inclusive com participação de setores dissidentes. O primeiro turno aconteceu em 25 de abril e o segundo, nas circunscrições em que ninguém obteve maioria absoluta, em 2 de maio último. Foi o 14º pleito consecutivo desde a institucionalização da revolução cubana, em 1976, quando foi aprovado, em referendo popular, o texto da Constituição Socialista, após um processo de exaustivas discussões em locais de trabalho, em escolas, em bairros e em comunidades rurais de todo o país. Importantes alterações surgiram dessa mobilização, que se estendeu por dois anos: a comissão de redação teve de alterar o preâmbulo e cerca de 60 dos 141 artigos originais do anteprojeto.

Nas últimas eleições, dos 37.766 candidatos para as Assembleias dos 169 municípios do país, indicados diretamente pelos moradores em cada circunscrição (área de mais ou menos uma quadra), os negros e mulatos somavam 41,3% e as mulheres, 35,76%. Os postulantes à reeleição eram 60,9%. Três quartos deles nasceram após a vitória da revolução, em 1959, e 87,3% têm o ensino médio completo ou formação universitária. Pouco mais de 8,2 milhões de cubanos (aproximadamente 94,7% dos eleitores) participaram do primeiro turno, enquanto no segundo e no terceiro (convocado em três circunscrições, onde nem mesmo a segunda votação apontou um vencedor) compareceram às urnas 1,65 milhão (89,67% do total). O voto é facultativo e podem exercer esse direito todos os cubanos a partir de 16 anos de idade. A presidente da Comissão Eleitoral Nacional, Ana María Mari Machado, informou que, no primeiro turno, os votos válidos superaram 91% do total, enquanto as cédulas em branco somaram 4,58% e as anuladas, 4,33% (1).

A campanha eleitoral dos dissidentes
O manto de silêncio erguido por quase todos os oligopólios da comunicação foi furado pela Agência BBC Mundo, que cobriu o processo eleitoral, não deixando de registrar a participação de setores contrários ao governo (2). Matéria assinada pelo correspondente em Havana, Fernando Ravsberg, relata que um grupo de opositores fez campanha em todo o país, com o objetivo de conquistar apoio para seus candidatos nas assembleias das circunscrições eleitorais. Um dos líderes do grupo é Silvio Benítez, que se apresenta como presidente do Partido Liberal. Ele reconhece que as organizações de oposição têm pouca penetração, mas acredita que elas podem crescer.

A reportagem da BBC acompanhou a assembleia eleitoral em que Silvio se indicou candidato, em Punta Brava, nos arredores de Havana. Segundo Ravsberg, estavam presentes cerca de 120 eleitores. Houve críticas e questionamentos tanto ao governo como ao dissidente postulante, mas sem agressões, insultos e muito menos repressão. O único guarda que o jornalista observou estava ocupado com o trânsito de veículos na rua em frente. Na assembleia, alguns moradores propuseram indicar para reeleição a atual delegada, uma médica pertencente ao Partido Comunista, enquanto Silvio se apresentou como candidato opositor. A médica obteve 50 indicações, enquanto o dissidente recebeu 20. Houve ainda 50 abstenções.

Ravsberg concluiu que Benítez não conseguiu ser indicado, mas “fez com que muita gente se abstivesse”. Após a eleição propriamente dita, a BBC acompanhou a apuração dos votos (também realizada publicamente) no colégio eleitoral correspondente à mesma circunscrição, e constatou que houve crescimento do número de pessoas que não votaram em nenhum dos candidatos: a soma de abstenções, votos anulados e em branco chegou a 20% dos eleitores (a média nacional, como vimos acima, foi de aproximadamente 15%). Silvio Benítez diz que está disposto a fazer um trabalho “casa por casa, como os Testemunhas de Jeová”, para conquistar o apoio de pessoas que já não votam na proposta governamental (3). Em sua campanha, ele procurou “questionar as barbaridades e a manipulação do governo, as farsas e as faltas de resposta ao povo”, segundo suas inflamadas palavras.

Não há veto, mas oposição teme mostrar falta de votos
O correspondente da BBC Mundo escreveu que era a primeira vez que os dissidentes cubanos participaram de eleições oficiais no país, mas ele mesmo já havia produzido matéria relatando como, em 2007, o candidato Gerardo Sánchez, apresentando-se como dissidente, obteve apenas 5% dos votos dos moradores de sua circunscrição. Na reportagem, Gerardo criticou os grupos dissidentes por se afastarem do processo eleitoral: “Quando me dizem que a oposição está forte em algum bairro, eu pergunto se ela tem condição de apresentar candidato. Se me respondem ‘não’, concluo que não é verdade o que me estão dizendo” (4). Ele é irmão de Elizárdo Sánchez, o presidente da Comissão Cubana de Direitos Humanos, um dos heróis mais festejados da mídia dominante, que, entretanto, jamais quis se apresentar candidato.

Como vimos, não há qualquer restrição à campanha e à participação dessas pessoas. O que acontece é que a maioria prefere ficar à margem para não tornar visível a sua falta de popularidade. Eles preferem pregar o voto nulo. O presidente da Comissão de Assuntos Constitucionais da Assembleia Nacional, José Luis Toledo, declarou à BBC: “Se eles alcançarem representatividade suficiente para que o povo os indique e depois vote neles, serão representantes. O problema é querer representar o povo sem ter seu apoio”.

As eleições municipais acontecem a cada dois anos e meio, enquanto as provinciais e as nacionais, a cada cinco. Todas são por voto popular direto. Os candidatos às assembleias municipais são indicados diretamente pelos moradores de cada circunscrição entre seus vizinhos, enquanto os das provinciais e nacionais são indicados por uma comissão de candidatura constituída por representantes das seis principais organizações de massa de caráter nacional: Comitê de Defesa da Revolução, Federação das Mulheres Cubanas, Central de Trabalhadores de Cuba, Federação Estudantil Universitária, Federação dos Estudantes do Ensino Médio e Associação Nacional dos Pequenos Agricultores.

O Partido Comunista de Cuba e a União de Jovens Comunistas não apresentam candidatos nem participam, como tal, do processo, pois não têm caráter eleitoral como nas democracias capitalistas. Também não há propaganda política, nem marqueteiros, nem dinheiro influenciando o voto popular. A única divulgação dos candidatos é feita através de folhetos preparados pela comissão eleitoral e afixados em locais públicos, com uma pequena biografia e uma foto de cada postulante, além de debates dos postulantes com os moradores.

Eleitos continuam a receber o mesmo salário, sem mordomia
Os delegados eleitos escolhem, entre seus pares, o presidente e o vice da Assembleia Municipal, órgão que tem a responsabilidade de administrar e fiscalizar os serviços públicos e as empresas industriais, comerciais e de prestação de serviços que estiverem sob jurisdição de seu município. Indicam, também dentre os eleitos, os membros do Conselho Popular, estrutura permanente para apoiar o trabalho dos delegados municipais.

Todo representante cubano deve prestar contas de sua atuação, em reuniões convocadas periodicamente para essa finalidade, aos cidadãos de sua base eleitoral ou ao órgão que o indicou. Ele está sujeito à revogação de mandato por insuficiência de desempenho ou por conduta incompatível com a representação popular. Assim, delegados municipais podem ter seus mandatos interrompidos pelos eleitores da circunscrição; representantes provinciais e nacionais, pelas Assembleias Municipais que aprovaram suas candidaturas; presidentes e vice-presidentes das assembleias dos três níveis, pelos respectivos órgãos que os elegeram. Os membros do Conselho de Estado podem ser destituídos pela Assembleia Nacional. Na esfera municipal, estima-se que, a cada legislatura, entre 7% e 12% dos delegados perdem suas representações dessa maneira (5).

Os representantes eleitos, em todos os níveis, permanecem com o mesmo salário de seus empregos e ocupações anteriores à eleição. Além disso, continuam a desempenhar seus ofícios nos centros de trabalho a que são vinculados, enquanto exercem seus mandatos. Os únicos dispensados disso são os que devem dedicação exclusiva aos respectivos órgãos (caso dos presidentes e vice-presidentes do Poder Popular nos três níveis e também dos deputados que participam de comissões temáticas permanentes). Quando estritamente necessário para o cumprimento de suas obrigações políticas e administrativas, utilizam veículos da frota oficial ou recebem passagem aérea específica. Ninguém possui cota de dinheiro público para gastar a bel-prazer, nem autonomia para contratar assessor ou incorrer em quaisquer despesas extras destinadas a seu gabinete (6).

Democracia ou ditadura?
Bem ou mal, esse é o sistema eleitoral que, ao lado da participação exercida diretamente pela população em diversos momentos, conforma a atual democracia cubana. Os cubanos estão satisfeitos? Em sua cobertura das eleições de 2010, a BBC Mundo ouviu diversos eleitores. Uma delas revelou que se absteve pela primeira vez, garantindo que só voltará a participar se for para eleger o secretário municipal do Partido Comunista, “que é quem pode mudar as coisas”, enquanto outros declararam haver votado para manifestar apoio à revolução e a suas lideranças. Toledo, o já mencionado presidente da Comissão de Assuntos Constitucionais do parlamento, reconhece as limitações de poder dos representantes municipais, mas atribui o fato às severas restrições orçamentárias do país, uma vez que a maioria das reivindicações da população depende, para sua solução, de recursos financeiros hoje indisponíveis.

O tema da participação popular e da eficácia do sistema cubano de representação tem aparecido igualmente nos debates populares, especialmente entre intelectuais. O subdiretor da revista Casa de las Américas, sociólogo Aurelio Alonso, por exemplo, afirma que vigora em Cuba uma institucionalidade demasiado estatizada e burocratizada, com um nível limitado de participação nos âmbitos decisivos. Para ele, as próprias discussões da Assembleia Nacional deixam a desejar, pois frequentemente têm caráter apenas formal. O parlamento é eleitoralmente democrático, mas os deputados têm pouca autonomia para decidir, em sua avaliação. Alonso entende que uma das alterações necessárias implica a redefinição do papel do próprio Partido Comunista, que não pode abranger a direção do Estado, atribuição que pertence a todo o povo.

O escritor Enrique Ubieta questiona os conceitos de democracia, de direitos humanos e de liberdade usualmente manejados pela direita em sua campanha contra Cuba. “Nós temos, sim, a nossa democracia. Acontece que nosso modelo não é igual, por exemplo, ao que existe na Espanha. Mas sob muitos aspectos, é mais autenticamente democrático. Nosso sistema eleitoral não é perfeito, mas ele não elege os candidatos com mais dinheiro. É possível discutir como aperfeiçoá-lo, mas não se pode decretar que não seja democrático” (7).

Enquanto isso, na tão admirada democracia britânica ...
O breve relato acima, baseado em informações de um tradicional órgão de mídia insuspeito de ser comunista, desmente (ou, no mínimo, põe em dúvida) assertivas autoritariamente impostas pelos oligopólios da comunicação e por seus prestimosos acólitos. Uma delas sentencia que Cuba é uma ditadura. Outra reza que, naquele país, não é possível criticar o governo sem ser preso ou reprimido. Uma terceira garante que os 56 presos do julgamento de 2003 foram postos na cadeia por serem contrários ao governo. E assim por diante. Essas proclamações são olimpicamente reafirmadas a cada momento, por mais que sejam desmentidas pelos fatos.

Enquanto isso, as recentes eleições britânicas deram nova demonstração de que a democracia liberal dos países capitalistas avançados não tem lá muito cabedal moral para ser imposta como modelo para o mundo, como pretendem os setores dominantes vocalizados por aquela mídia oligopólica.

O colunista do The Guardin, Gary Younge, por exemplo, interpretou o voto do povo britânico como uma manifestação contra a claudicante democracia naquele país, permanentemente frustrada pelo poder econômico. “Em última instância, são eles [os banqueiros e demais representantes do capital) que decidirão o quão rápidos e brutais serão os cortes iminentes das despesas públicas. Além do que, é seu endosso – não o do eleitorado – que os políticos buscam (...) Essa contradição entre democracia e capitalismo não é nova. Mas, durante este período de crise financeira e econômica na Europa, ela ficou particularmente aguda”, fulminou Younge, para completar: “Assim, o setor que nós salvamos com dinheiro público, administrado por pessoas incompetentes que novamente estão se pagando grandes bonificações, agora ameaça desestabilizar o próximo governo, caso ele não demita milhares de trabalhadores mal pagos, reduza seus salários e acabe com os serviços que presta a milhões de pessoas pobres” (8). Onde está mesmo o poder do povo, isto é, a democracia, nesse tão incensado regime de Sua Majestade?

Aliás, os exaltados inimigos de Cuba, convictos de atuar em nome da democracia, devem tomar cuidado em sua cruzada, para não se igualarem demasiado a seus companheiros de trincheira de Miami, cuja convicção democrática não parece ser tão profunda, como exemplifica o artigo “Mi valiente y sensible coronel”, publicado por Mirta Ojito em El Nuevo Herald, porta-voz dos exilados cubanos (9). A autora pede, nada mais, nada menos, que os militares dêem um golpe de estado em Cuba, já que as manifestações populares (em Nova York e em Miami) e os artigos de jornais (como o dela) não têm conseguido derrubar o regime de Havana.

(*) O autor é jornalista, com passagem pela Rádio Havana. Tem concluídos os originais de um livro que relata a situação atual do país, sob o título provisório de “Cuba sem bloqueio: a revolução cubana sem as manipulações impostas pela mídia dominante”, com a colaboração de Antonio Gabriel Haddad.

NOTAS

(1) Os números são de reportagens publicadas no jornal Granma de 27/04/2010 e de 04/05/2010.

(2) Fernando Ravsberg. Disidentes cubanos en campaña electoral. BBC Mundo, 13/03/2010. http://www.bbc.co.uk/mundo/america_latina/2010/03/100312_0021_cuba_disidentes_elecciones_gz.shtml.

(3) Idem. Cubanos votaron, no se esperan cambios. BBC Mundo, 26/04/2010. http://www.bbc.co.uk/mundo/america_latina/2010/04/100425_cuba_elecciones_municipales_resultado_jaw.shtml.

(4) Fernando Ravsberg. Cuba: elecciones municipales. BBC Mundo, 20/10/2007 (http://news.bbc.co.uk/hi/spanish/latin_america/newsid_7052000/7052517.stm, acesso em 19/04/2009).

(5) Ver http://www.nodo50.org/cesc/Documentos/Charla.E.Valdes.251105.pdf.

(6) Após uma solenidade no Palácio das Convenções de Havana, em dezembro de 2006, vimos o presidente da Assembleia Nacional, Ricardo Alarcón, ser recolhido por uma viatura daquele órgão. Quando o carro (um automóvel da montadora russa Lada, da década de 1980) chegou, ele abriu a porta, cumprimentou o motorista familiarmente e entrou. Nenhum séquito de cortesãos e de guarda-costas, nenhuma pompa, nenhum luxo. Tratava-se de uma das maiores autoridades do governo cubano, que não se diferenciava de um cidadão comum.

(7) "Esquerda não pode aceitar definição da direita para democracia". Portal Vermelho, 28/04/2010. http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=128383&id_secao=7.

(8) Gary Younge (The Guardian). Não vamos permitir que os mercados atropelem as urnas. O Estado de S. Paulo, 11/05/2010.

(9) Ver em http://www.elnuevoherald.com/2010/04/04/689025/mirta-ojito-mi-valiente-y-sensible.html.


Fonte: Carta Maior - 12/05/2010

EMPRESÁRIOS REPUDIAM POSIÇÃO DE SERRA SOBRE MERCOSUL

Reunidos na Espanha, micros, pequenos e médios empresários europeus e latinoamericanos aprovaram uma moção de repúdio às declarações do candidato tucano que qualificou o bloco sulamericano como uma "farsa" e defendeu sua "flexibilização". Em nota, eles defendem o Mercosul como o "mais importante acordo econômico e cultural da América Latina" e advertem para os riscos decorrentes do enfraquecimento do processo de integração no atual quadro de crise internacional.

A Cúpula Eurolatinoamericana de Microempresas e economia social, realizada de 3 a 6 de maio em Cáceres, Espanha, aprovou uma moção de repúdio às declarações do candidato tucano à presidência do Brasil, José Serra, caracterizando o Mercosul como uma “farsa” e defendendo a sua “flexibilização”. A nota aprovada pelos empresários reunidos na Espanha defende o Mercosul como o “mais importante acordo econômico e cultural da América Latina”. Além disso, adverte para os riscos de, no atual quadro de crise internacional e com um enfraquecimento da integração, as grandes corporações ampliarem seu poder em detrimento das empresas latinoamericanas.

O encontro de Cáceres aprovou também a criação da Eurolatim – Associação Eurolatinoamericana de Micros, Pequenas e Médias Empresas que terá como objetivo buscar uma maior integração social e econômico entre os povos da Europa e da América Latina. A íntegra da nota aprovada na reunião de cúpula é a seguinte:

Nota de Repúdio
Os empresários latinoamericanos reunidos em Cárceres, Espanha entre os dias 03 e 06 de Maio para a “CUMBRE EUROLATINOAMERICANA DE MICROEMPRESAS Y ECONOMIA SOCIAL” que resultou na Fundação da EUROLATIM 98% – Associação Eurolatinoamericana de Micros, Pequenas e Médias Empresas que tem como objetivo principal buscar uma integração social e econômica entre os povos alicerçadas nos princípios da sustentabilidade, repudiam fortemente as manifestações do candidato a presidência da República do Brasil, Sr. José Serra, que propõe substituir o Mercosul e as demais alianças regionais por tratados de livre comércio.

Considerandos:

• O Mercosul é o mais importante acordo econômico e cultural da America Latina.
• No atual momento de crise o Brasil sair do Mercosul é abrir espaço para que as grandes corporações internacionais ampliem seus interesses em detrimentos das empresas LatinoAmericana.

Esperamos que o candidato venha a público e esclareça sua posição que só interessa àqueles que sempre produziram pobreza e desigualdades em nosso continente.

Assinam esta nota:

ALAMPYME – Associalção Latino Americana de MIPYMEs

ALAMPYME – Capítulo México

AMPYME – Asemblea de Pequenã e Mediana Empresas de Argentina.

ANMYPE – Asociación Nacional De Micro Y Pequeñas Empresas de Uruguay

CAMARA DE LA PEQUEÑA INDUSTRIA DEL GUAYAS de Equador.

CONFAGAN — Cofederación Nacional de Agricultores y Ganaderos de Venezuela.

CONUPIA – Confederación Nacional Unida de La Pequeña y Micro Empresas do Chile.

FEBOPI – Federación Boliviana de La Pequeña Industria

FEPAMI – Federación Paraguaya de Micro Empresários

UPTA — Unión de Profesionales Trabajadores Autónomos de Espanha

Fundación para La Internacionalización do Soft Livre de Espanha

Fonte: Carta Maior - 07/05/2010

O ANTI-LULA DE SERRA: SUA VERDADEIRA POLÍTICA ECONÔMICA

Serra ficou furioso. Sua equipe econômica deu entrevista à agência Reuters e abriu o jogo, revelando o plano econômico real que, caso ganhasse o tucano, colocaria em prática, confirmando os principais neoliberais de Serra – os mesmos que orientaram seu governo em São Paulo. Serra esbravejou, esperneou, distribuiu broncas, ordenou que ninguém repercutisse nos partidos da imprensa. Mas já era tarde.

A primeira medida econômica de Serra seria um duro ajuste fiscal – como é típico dos governos neoliberais. Segundo revelado por dois membros da equipe econômica tucana, se promoveria a renegociação de contratos e o corte de despesas públicas – conforme o modelo do FMI. Esse seria o começo do “choque de gestão”, típico das gestões tucanas.
“Ele vai entrar com medidas fiscais e até renegociação de alguns contratos”, disse a fonte tucana.”As despesas da máquina pública estão sob um controle muito frouxo...”

Critica-se o aumento das despesas públicas, uma suposta queda na arrecadação e as desonerações feitas para resistir aos efeitos da crise mundial. Anuncia que estão vigilantes sobre a cotação do real frente ao dólar. O papel dos bancos públicos seria “relativizado”, de forma coerente com a privatização do Banespa, vendido ao banco espanhol Santander, assim como a colocação à venda da Nossa Caixa que, felizmente, foi resgatada pelo Banco do Brasil. Assim, São Paulo, o estado mais rico do país, não tem mais nenhum banco público, o candidato tucano preferiu liquidar o patrimônio para fazer estradas, que aparecem muito mais do que financiamentos subsidiados para casa própria, por exemplo, como faz o governo federal. “Relativizado” significa baixo perfil, Estado mínimo, conforme o receituário neoliberal, para que os bancos privados possam ser absolutizados, possam ocupar mais espaço ainda.

Diz o tucano, na entrevista a Reuters, que o fortalecimento dos bancos públicos contribuiria para “aumentar a pressão inflacionária, ao aquecer em demasia a atividade” (sic), preocupação prioritária dos neoliberais, que não aprendem com o governo Lula que se pode – e se deve – aumentar os salários e diminuir as taxas de juros que, em um marco de crescimento com distribuição de renda, não apresentam riscos inflacionários. “Não acho que os bancos públicos precisam ter uma política tão protagonista (sic) neste pós-crise”, afirma a fonte, de forma coerente.

“Uma atuação menos arrojada, inclusive, poderia ser um dos caminhos para evitar a alta das taxas de juros a fim de controlar a inflação e as expectativas de preços”, comenta Reuters, a partir da conversa com membros da equipe econômica tucana.

A equipe serrista considera exagerados os estímulos fiscais dados pelo governo Lula durante a crise. “Não precisava dar para toda a linha branca e depois para móveis...” Parece que seguem acreditando que o próprio mercado tem mecanismos próprios de reativação econômica.

Apostam pouco na concretização de reformas como a tributária, em que o interesse seria apenas o de desonerar investimentos e folha de pagamento, sem nada que apontasse para uma estrutura tributária em que “quem ganha mais, paga mais”, como seria socialmente justo.

Então, a surpresa que Serra esconde é similar à de Carlos Menem e à de Carlos Andrés Perez: um grande pacote de ajuste, escondido sob o disfarce de um “choque de gestão”, tão a gosto do neoliberalismo tucano.

Emir Sader - 06/05/2010

ENTREVISTA DE DOMINGO: TITO FLÁVIO BELLINI

‘Aqui é o meu lugar. Aqui eu sou feliz’

Foto: Marcos Limonti/Comércio da Franca
UMA CIDADE ESCOLHIDA - O professor Tito Flávio Bellini chegou a Franca e não teve uma boa primeira impressão, mas logo sua relação com a cidade se tornou muito intensa
UMA CIDADE ESCOLHIDA - O professor Tito Flávio Bellini chegou a Franca e não teve uma boa primeira impressão, mas logo sua relação com a cidade se tornou muito intensa

Edson Arantes

Quando chegou a Franca em 1995, Tito Flávio Bellini, 33, não gostou do que viu. Ainda era um jovem prestes a ingressar na faculdade e havia deixado o conforto da casa dos pais, no litoral paulista, para trás. Logo no primeiro dia, teve de esperar mais de duas horas para se instalar em uma pensão na área central. Para matar o tempo, resolveu ligar o rádio para ouvir o jogo do Santos, seu time de coração, contra o Corínthians. As rádios da cidade só estavam transmitindo basquete.

As impressões negativas da cidade foram apagadas rapidamente. Tito estava cursando História na Unesp e, logo no segundo ano, começou a se interessar pela história da cidade. O ingresso no movimento estudantil foi uma questão de tempo. Também não demorou para integrar as fileiras no PT, onde ficou por dez anos. Após se formar, Tito Flávio permaneceu na cidade e casou-se com uma francana. Bebeu, literalmente, a água da careta e fixou raízes em Franca.

A relação com a cidade se tornou tão intensa que sonhou em administrá-la. Em 2008, Tito Flávio se candidatou a prefeito pelo PCB. Os 1.723 votos que recebeu o deixaram longe da vitória, mas o professor marcou seu nome durante a campanha ao defender suas propostas com clareza e articulação. “A gente tentou mostrar que era possível ser radical, atacar a raiz do problema, com propostas conscientes. O desafio da eleição foi desmistificar e mostrar que ser comunista não é comer criancinhas e sair tomando as casas das pessoas”.

Um ano depois das eleições, o professor universitário falou com a reportagem e contou como vê a cidade no momento em que ela completa 185 anos (o aniversário foi no dia 28 de novembro). Crítico como sempre, Tito Flávio também avalia o primeiro ano do segundo mandato do prefeito Sidnei Rocha (PSDB), seu principal alvo durante a campanha, e fala sobre o futuro que espera para a cidade que escolheu para viver.

Comércio - O senhor fixou raízes em Franca há quase 15 anos. Como uma pessoa de fora vê a cidade no momento em que ela completa 185 anos?

Tito Flávio - É curioso. Vim para a cidade em 1995 e já tinha ouvido falar de Franca, mas não tinha nenhuma referência, além das tradicionais como o calçado e o basquete. Me surpreendi com o porte da cidade, mas, como todo o jovem que acaba de sair da casa da família e do conforto do lar, vim enfrentar o dia-a-dia sozinho e estranhei bastante no início. Então, caí num tipo de vício muito comum entre os estudantes: o de renegar a cidade e de só ver aspectos negativos. Isto, no meu primeiro ano. Logo no segundo, comecei a acompanhar um pouco mais a história da cidade, a história do movimento operário. Com isto, me aproximei muito mais desta identidade e aprofundei a relação. Comecei a admirar e respeitar Franca cada vez mais. De lá para cá, minha relação com a cidade é intensa. Costumo dizer que sou eu francano por opção. Nasci em Santos e morei em Itanhaém, mas a minha identidade, a minha maturidade toda e o meu crescimento profissional se deram aqui.

Comércio - O que há de diferente entre as contradições de Franca e as de outras cidades?


Tito Flávio - É uma cidade rica, mas com uma pobreza latente. É uma riqueza concentrada. Os dados mostram que sempre estão sendo abertos empregos, mas a renda deles está abaixo da média do Estado. Franca não tem favelas como outras cidades do mesmo porte. A miserabilidade absoluta, como a gente tem em outros centros, não desembocou ainda aqui. Há focos de riqueza muito grande, mas esta riqueza é concentrada. Temos um tipo de contradição que é passível de ser sanada a partir, claro, da organização, da formação, do conhecimento e da cultura.

Comércio - Por que resolveu vir para Franca?

Tito Flávio - O litoral de São Paulo, onde eu vivia, é muito carente em tudo. Lá, o nível e as condições de estudo são muito precárias. Boa parte da juventude de Itanhaém pagava as faculdades particulares em Santos ou São Paulo. Desde jovem, coloquei na minha cabeça que tinha de cursar uma faculdade pública. Sempre me interessei por História. Eu prestei USP, Unicamp, Unesp. Não tenho como negar que, naquele momento, queria muito era fazer USP e ficar em São Paulo perto de minha família, mas me surpreendi e me identifiquei muito com a dinâmica da Unesp. Prestei o vestibular e vim para estudar. Foi até curioso: peguei o jornal (com a relação dos aprovados) e não vi meu nome. Quando cheguei em casa, minha mãe disse que não queria saber e que eu teria de arrumar algum serviço. Olhei melhor e vi que meu nome estava em uma coluna do lado. Acabei vindo para cá e estou construindo minha história dentro da cidade, inclusive, na política. Sempre digo aos meus amigos daquela região, que têm posturas conservadoras, que são próximas do PSDB, que Franca me salvou de ter uma visão fatalista da história. Foi minha vinda para Franca e o contato com a história da cidade que abriram os horizontes para mim e permitiram que eu conseguisse enxergar outras perspectivas e possibilidades. No meu segundo ano de Franca, já comecei minha militância com o movimento estudantil. Foi um aprendizado muito grande. Na mesma época, entrei nas fileiras do PT.

Comércio - O senhor permaneceu no PT por dez anos. Em 2007, resolveu se filiar ao PCB. Qual foi o motivo da saída?

Tito Flávio - Muitos saíram do PT neste último período alegando um tipo de traição. Foi uma discussão moral. Acho que a política tem a questão moral, mas não pode se pautar só por isto. O que me fez sair do PT foi uma questão programática. Não me senti traído. Talvez eu tenha me iludido, acreditando que o PT ia muito além do que eu imaginava no sentido de ideal de transformação. Acreditava que o PT poderia dar uma guinada mais à esquerda como acho importante para um partido político. Percebi que o PT hoje, talvez, seja um partido mais social democrata. Acreditam que é possível uma aliança duradoura entre capital e trabalho. Ao longo da minha trajetória como professor e pesquisador, percebi que são classes ou setores inconciliáveis. Você pode até caminhar conjuntamente por um certo tempo, mas se não tiver um objetivo geral de superação desta contradição, muitos problemas que parecem resolvidos vão voltar à tona.

Comércio - Como foi a experiência de disputar a Prefeitura de Franca?

Tito Flávio - Vou revelar que a decisão da candidatura foi um momento surpreendente até para mim. A gente vinha conversando com outros partidos, particularmente com PSol. A ideia era construir uma aliança, mas não conseguimos chegar a um acordo e ouvimos vários grupos. O pessoal entendeu que seria mais importante uma candidatura própria. Eu estava relutante, pois sabia que isto poderia recair sobre mim, como de fato aconteceu. Aceitei o desafio, pois sabia que era importante a gente ter uma candidatura independente para poder tentar desmistificar um pouco o que é uma política comunista. Gostei muito do processo e acho que a gente pôde qualificar e contribuir muito com o debate e com o conteúdo programático, tanto eu quanto o Rogério (Rogério Limonti, candidato a vice). Ele teve uma posição surpreendente em nível de coerência e comprometimento. O nosso objetivo era ter uma contribuição coerente e radical. Muitas vezes, associam radicalidade com irresponsabilidade ou com utopia. A gente tentou mostrar que era possível ser radical, atacar a raiz do problema, com propostas conscientes. O desafio da eleição foi desmistificar e mostrar que ser comunista não é comer criancinhas e sair tomando as casas das pessoas. É se preocupar com as raízes dos problemas e tentar resolver as contradições de forma duradoura. Acredito que demos o recado.

Comércio - O prefeito Sidnei Rocha está completando o primeiro ano do segundo mandato. Como o senhor avalia a atual administração?

Tito Flávio - Uma continuidade do primeiro mandato. Ele não participou dos debates e, então, era difícil ver o que ele propunha. Algumas propostas surgiram depois das eleições, mas está tudo emperrado, como a construção do novo pronto-socorro. O Sidnei incorporou esta ideia de outro candidato, mas acho isto positivo. A saúde está caótica. O transporte, que foi o mote, talvez, que jogou contra a gente na campanha, está caótico. Algumas ruas são intransitáveis em determinados horários, mostrando que o trânsito não vai bem. Sabemos do apreço que o prefeito tem com a empresa São José, mas ele fez muito pouco em relação ao fim das gratuidades. Acho que o governo tem investido no embelezamento da cidade. As contradições ainda não foram resolvidas. A questão econômica da cidade está paralisada. A Prefeitura tem um papel importante nisto como indutor de desenvolvimento. Acredito sempre que a política é um reflexo da sociedade. O prefeito tem sua classe social de origem e vai sempre defender estes interesses.

Comércio - O Comércio publicou no domingo passado uma pesquisa mostrando que a aprovação popular do prefeito nunca esteve tão alta. Se a administração não está boa, por que a população deu uma expressiva nota para o governo?

Tito Flávio - Eu não daria nota zero para o prefeito. Não sou ingênuo. Algumas questões, como a melhoria do asfalto, são importantes para a cidade, mas acho que, além da propaganda, ele pega muita carona nesta questão nacional. Não é nem fazer uma defesa do governo Lula. É fazer uma leitura clara que, talvez, a população, por falta de informações, não consegue fazer. Um exemplo é a construção do novo campus da Unesp. Pelos outdoors espalhados pela cidade, parece que foi obra dos deputados ou do PSDB, mas mais da metade dos recursos é do governo federal. Tem também o programa Minha Casa, Minha Vida e o acesso ao crédito mais facilitado. Muitas pessoas não percebem que boa parte das conquistas se deu por algumas mudanças pontuais do governo federal e, não, necessariamente, pelo município. Avalio que boa parte desta aprovação do Sidnei é pela operação embelezamento que continua de vento em popa.

Comércio - Quando o senhor chegou à cidade, há 15 anos, a realidade era completamente diferente. Nos últimos anos, o progresso chegou rápido e a cidade viveu um boom econômico. Como vê esta transformação?

Tito Flávio - Algumas redes vêm e outras fecham. A cidade tem crescido muito. Não acho que é um boom tão grande, mas tem crescido. É natural a chegada de grandes redes de lojas e supermercados. Elas vão onde tem dinheiro. O crescimento é natural e não acontece sozinho. Poderia ser um desenvolvimento mais equilibrado, com mais qualidade e mais distribuição de renda. Acho que falta planejamento para o crescimento. O mito da grande empresa geradora de emprego é um perigo. A gente sabe que a grande geração de emprego com maior durabilidade está nos médios negócios. A ação da Prefeitura deveria ser neste sentido.

Comércio - Como professor de história, o que o senhor visualiza de futuro para Franca?

Tito Flávio - É difícil fazer este exercício de futurologia. O que espero é que Franca retome sua capacidade de organização popular. A cidade já foi exemplo para o Brasil inteiro. Creio muito que vai ser a partir de um novo modelo de organização que os problemas serão resolvidos. O traço operário e estudantil contribui muito para a busca de superação. O que idealizo é um crescimento mais planejado e que a população retome sua capacidade de fazer a história. Isto só se faz de forma coletiva, por meio de associações culturais, de moradores, no espaço da igreja ou no partido político. É preciso acreditar que a mudança e a melhoria das condições de vida são possíveis.

Comércio - No começo da entrevista, o senhor disse que chegou jovem à cidade e que viu muitos problemas. A mudança de opinião foi rápida?

Tito Flávio - Minha birra começou no primeiro dia, particularmente. Fui para uma pensão e esperei cerca de duas horas até ela abrir. O Santos estava jogando com o Corinthians e tentei ouvir pelo rádio. Liguei o aparelho e estava passando jogo de basquete. Fiquei com uma raiva naquele momento. Hoje, claro, entendo e passei a acompanhar o basquete. Assim que a fonte da água da careta foi reformada, eu já estava tão entusiasmado e vinculado à cidade, que fiz questão de ir lá e beber. Eu gosto daqui. Franca é o lugar que escolhi.


Fonte: Jornal Comércio da Franca

FRANCANOS RECHAÇAM CANDIDATOS FORASTEIROS

Edson Arantes



Os eleitores francanos não querem perder seus representantes e pretendem concentrar seus votos em candidatos de Franca e região nas próximas eleições. A projeção é resultado de uma pesquisa realizada pelo Instituto Datalink que saiu às ruas da cidade, no fim de outubro, e ouviu 400 pessoas para saber como elas votariam se as eleições fossem hoje. A grande maioria respondeu que não votará em forasteiros e pretende repetir o ocorrido em 2006, quando os eleitores priorizaram candidatos locais.

A pesquisa, realizada entre os dias 23 e 29 de outubro em dez bairros de todas as regiões de Franca, tem margem de erro estimada em 4,9 pontos percentuais para mais ou para menos. O Datalink perguntou se o eleitor escolheria um candidato local ou de outra região do Estado se as eleições fossem hoje. Tanto para a Câmara Federal, quanto para a Assembléia Legislativa, a dife rença pró-Franca foi massacrante.

Em relação à disputa para federal, 91% dos entrevistados responderam que vão descarregar seus votos em alguém da cidade. Apenas 6,2% disseram que vão optar por candidatos de fora e 2,7% não manifestaram suas intenções. “O povo já se conscientizou que é preciso manter em Brasília alguém re presentando a nossa região como um todo. Acho isto muito bom. É o voto distrital na prática, sem precisar mudar a legislação para isto”, avaliou o de putado Marco Aurélio Ubiali (PSB). O ex-prefeito Gilmar Dominici disse ter sentido na pele as dificuldades pela ausência de um apoio em nível nacional. “Quando fui prefeito, governei a cidade por oito anos sem o município ter um de putado federal e sempre critiquei este fato. As dificuldades eram muito grandes. Por isto, a importância da maioria dos eleitores votar em candidatos locais. Uma cidade como a nossa não pode ficar sem re presentante na Câmara Federal”, disse.

Quando a pergunta foi sobre a votação para estadual, a preferência para os candidatos locais foi ainda maior: 92,5%. Apenas 5% pretendem votar em representantes de outras regiões. O percentual de indecisos é praticamente o mesmo: 2,5%. “Achei boa a postura da população que ao dar (o voto) também deverá cobrar depois”, disse o prefeito Sidnei Rocha (PSDB). Para o ex-vereador e advogado Fábio Cruz, a concentração em candidatos locais é um clamor natural da cidade há tempos. “Ninguém precisa querer ousar em brigar com o resultado da pesquisa, pois ela traduz a realidade dos fatos. A população, mais uma vez, age com sabedoria ao querer os que têm base eleitoral em Franca. Só consegue recursos quem tem representação”.

O percentual pró-Franca na pesquisa de intenção de voto em candidatos francanos supera a votação real de 2006 quando os eleitores rechaçaram os forasteiros e elegeram três de putados pela primeira vez na história. Do total, 73,34% escolheram de putados estaduais da região. A preferência para candidato a deputado federal local foi ainda maior: 74,57%. O resultado, todos sabem: depois de 20 anos, Franca conseguiu eleger um representante em Brasília. Dos 84.175 votos que Ubiali teve, 68.050 foram obtidos na cidade.



A concentração de votos também garantiu a reeleição de Gilson de Souza (DEM) e de Roberto Engler (PSDB) como deputados estaduais. O primeiro recebeu o voto de 56.001 eleitores de Franca. A performance de Engler é a exceção, já que foi exatamente o contrário. Foram os votos de fora que garantiram o seu quinto mandato seguido. O tucano recebeu 33.042 votos em casa, mas foi buscar 44.444 em ou tros municípios.

Segundo informações do cartório eleitoral, Franca conta atualmente com 212.170 eleitores. O número não deve alterar significativamente até as próximas eleições. Caso as projeções se confirmem, a cidade terá votos suficientes e condições de manter sua representatividade. Já na possibilidade de saírem muitos candidatos, a pulverização poderá ser fatal e reduzir o número de vagas já conquistadas. Reportagem publicada pelo Comércio no dia 11 de ou tubro revelou que pelo menos 15 políticos admitem a intenção de disputar as eleições do ano que vem.

Fonte: Jornal Comércio da Franca